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O fenómeno Gueta
Nos últimos meses, um nome tem circulado nas conversas de bairro, nas filas do transporte público e nas redes sociais em Moçambique: Gueta, esposa do Presidente da República, tem sido alvo de elogios rasgados por uma razão incomum nos dias de hoje — a sua autenticidade e proximidade com o povo.
Diferente do que se vê tradicionalmente nos círculos do poder, Gueta adotou uma postura que muitos consideram "fora do protocolo", mas que exatamente por isso a aproxima do cidadão comum de uma forma genuína e rara. Numa era onde 50 mil meticais podem transformar uma pessoa humilde em alguém arrogante que esconde até da própria esposa, a atitude da Primeira Dama provoca uma reflexão necessária: o poder e a posição social devem distanciar ou aproximar?
"Antes sim, ela era desconhecida. Agora virou estrela. Mesmo assim, ela desceu ao nível de onde sempre esteve." — diz um popular na feira de Xipamanine.
Sem escolta até os dentes
Enquanto muitas figuras públicas circulam em comboios militares, com vidros fumados e seguranças armados a toda volta, Gueta dispensa o aparato de segurança exagerado que normalmente isola as figuras do governo do contacto com o cidadão comum.
Testemunhas relatam tê-la visto em mercados populares, ruas movimentadas e bairros periféricos sem o tradicional cordão de isolamento. Esta atitude, embora simples, tem um significado profundo: mostra que ela não teme o povo, pelo contrário, sente-se parte dele.
Senta e come com quem não tem nada
Um dos episódios mais comentados aconteceu num humilde barraca de pastéis no bairro de Mafalala. Gueta sentou-se no banco de madeira, comeu com as mãos e pagou a conta como qualquer cliente.
Para muitos, esse gesto representa a quebra de um protocolo elitista que separa governantes e governados. "Ela podia estar num restaurante de luxo, mas preferiu partilhar a refeição simples com pessoas simples. Isso toca o coração", comentou um sociólogo ouvido pela nossa reportagem.
A atitude contrasta com a realidade comum: muitos que ascendem socialmente esquecem as origens. A mesa farta, o carro do ano, o relógio importado... Gueta mostra que é possível estar no poder sem perder a essência.
Porque isso é tão raro?
Especialistas apontam que a síndrome do "novo rico" atinge todas as camadas: "Quando uma pessoa comum ganha 50 mil meticais, às vezes esconde até da esposa, muda o comportamento, fica arrogante. Agora imagina no poder político, onde o ego é constantemente alimentado. A atitude de Gueta é quase revolucionária", explica o psicólogo social Dr. Armando Nhampossa.
Se queima no calor, se perfuma com fumo de furgão a lenha
Nas zonas suburbanas de Maputo e arredores, o transporte para a população mais pobre é feito em furgões a lenha — vulgo "my love" — onde o calor é intenso e o fumo do motor invade o habitáculo. Gueta já foi vista nesses transportes, partilhando o mesmo desconforto de milhares de moçambicanos.
"Ela podia usar uma viatura oficial com ar condicionado, mas preferiu sentir na pele o que o povo sente. Isso mostra empatia real, não daquela de discurso", afirma um morador de Inhamízua.
A imagem de uma primeira-dama enfarinhada pelo pó da estrada, com o suor no rosto e o cheiro de lenha na roupa contrasta violentamente com a frieza dos gabinetes climatizados onde muitos políticos passam os dias, alheios à realidade lá fora.
Tira fotos com qualquer pessoa, independentemente do celular
Outro ponto que conquistou os moçambicanos: Gueta não seleciona com quem tira foto. Diferente de muitas figuras públicas que só posam para equipas oficiais ou fotógrafos profissionais, ela atende ao pedido de qualquer cidadão, seja com um iPhone último modelo ou com um humilde telemóvel chinês de 1.500 meticais.
Nas redes sociais, multiplicam-se os registos: vendedoras, estudantes, carpinteiros, mães com crianças ao colo — todos exibem orgulhosos a foto ao lado da Primeira Dama.
"Aproximei-me com medo. Pensei que os seguranças iam me afastar. Mas ela mesma me chamou, perguntou meu nome, e ainda disse: 'Vamos tirar essa foto, qual é o teu telefone?'. Tirei com meu Itel e ficou linda. Mostrei no bairro e ninguém acreditava."
Acessível sem marcar audiência
Tradicionalmente, falar com uma figura do gabinete presidencial exige marcar audiência com semanas de antecedência, enfrentar burocracia e, muitas vezes, ser ignorado. Gueta quebrou esse protocolo: atende, ouve, conversa — sem agenda, sem intermediários.
Há relatos de que ela já parou o carro para atender uma senhora que acenou na estrada, já entrou numa loja para comprar pão e acabou ouvindo as queixas dos comerciantes, já sentou num banco de praça para conversar com jovens desempregados.
Esta acessibilidade tem um impacto político e social imenso: reduz a distância entre o Estado e o cidadão, humaniza o poder e restaura a esperança de que é possível uma liderança que escuta.
O contraste com a política tradicional
Política tradicional
- Escolta armada e isolamento
- Restaurantes de luxo, longe do povo
- Só fotografias oficiais
- Audiências burocráticas
- Ar condicionado, distante da realidade
- Arrogância do poder
Postura de Gueta
- Circula sem medo do povo
- Come na barraca, com as mãos
- Selfie com qualquer celular
- Atende sem marcar hora
- Anda de furgão, sente o calor
- Humildade genuína
Não podemos misturar as coisas: Gueta não age em nome de partido político, mas sim em nome do gabinete da primeira-dama. Enquanto alguns da oposição estão na capital a se refrescar com ar condicionado ligado, ela está no terreno, no interior, nas províncias, a ouvir quem realmente precisa.
Se os da oposição estão na capital a se esfriar com AC ligado, deixa ela. Não quer gudeza. Vamos apoiar a iniciativa dela. Cada um faz seu destino. Não se obriga viver com o povo — mas ela escolheu viver.
O que isso representa para Moçambique?
Especialistas ouvidos pela nossa reportagem apontam que a atitude de Gueta tem impactos que transcendem o simbólico:
- Humanização do poder — Numa sociedade hierarquizada, ver uma figura de topo partilhando os mesmos desconfortos quebra barreiras psicológicas.
- Exemplo para outras figuras públicas — A pressão popular começa a fazer com que outros governantes repensem o isolamento.
- Restauração da esperança na liderança — Jovens que desacreditavam da política passam a ver que é possível ser diferente.
- Fiscalização social natural — O povo sente-se à vontade para reclamar, sugerir, elogiar.
Mas também há desafios: a exposição traz riscos de segurança, e há quem critique que gestos isolados não resolvem problemas estruturais. No entanto, para a maioria da população, o que Gueta faz é devolver a dignidade ao cidadão comum

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